Sunday, July 17, 2011

1982 (Footage 4 from Icarus, Contemplation & Dream)



Trecho do livro Ícaro, Contemplação & Sonho:
Aconteceu, então, uma experiência estranhíssima em consequência direta desse contato com os cadáveres. Como de hábito, fui ao cinema com meu irmão mais velho. O filme era uma insuportável grande obra de um insuportável grande cineasta. Lá pelo meio do filme, surgiu uma escada. Imediatamente, achei aquela escada muito conhecida. Sei lá como, mas achei. Nesse exato momento, me veio o cheiro de cadáver podre que havia sentido lá na UFRJ um dia antes. O fedor, que parecia ter ficado no meu nariz, me tomou
os sentidos quando na tela do cinema a cena exibia a lenta descida pela tal escada.
Como uma cortina sendo aberta para a esquerda, a minha visão pelos olhos foi substituída por uma espécie de visão cerebral. Nessa visão cerebral, que nos segundos iniciais eu pensava ser a visão normal, eu me via descendo por uma escada de pedra. Só que essa escada de pedra estava mal iluminada. A luz era muito alaranjada, quase vermelha, luz de chamas. Ao terminar a descida, eu cheguei ao local de onde o cheiro de podre provinha. Havia muitas mesas de madeira e, sobre elas, cadáveres. Muitos cadáveres. Nesse momento, eu per-
cebi que aquilo não era o filme. Comecei a querer ver pelos meus olhos, mas não conseguia! Sacudi a minha cabeça, cada vez mais nervoso, e, de repente, alguém veio na minha direção e me chamou:
— Michelangelo!
“Mas meu nome não é esse!”, reagi, e a cortina cerebral se desfez. Eu voltei a ver o filme, que ainda exibia a escada, iluminada na cena pela luz do dia. Fiquei em estado de choque. A respiração acelerada passou e me acalmei. Estava agradecido por ter voltado. Na saída do cinema, tentei relatar ao meu irmão o que havia acontecido, mas acho que ele não entendeu a minha tentativa de descrição da experiência. Não me lembro de ter deduzido nada de relevante a respeito desse episódio, mas pela primeira vez o nome “Michelangelo” surgia numa experiência associada ao meu desenho e ao sentimento de saudade.
Eu cheguei a refletir sobre as indagações da Circléa e da minha tia referentes a uma possível ligação minha com o tal Michelangelo Buonarroti, mas confesso que pensar sobre isso me incomodava muito no íntimo. Tinha medo de descobrir algo que viesse a mudar o meu modo de ser como Carlos Eurico Poggi de Aragão Junior. A verdade é que estava me agarrando à mente consciente e tentando escapar da corrente que sentia me puxar para uma nova e misteriosa autopercepção. Eu estava bloqueando, sim, toda e qualquer ameaça à minha integridade e racionalidade por medo de descobrir ser algo
muito diferente do surfista-shaper que eu amava ser.
Confesso que achei interessantíssima a combinação de visão e cheiro me abrindo uma outra dimensão sensorial. Mas essa experiência me deixou, também, com a sensação de estar sendo encapsulado nessa outra dimensão sensorial, que nada tinha a ver com a minha vida original. A frieza do meu irmão diante do meu relato provocou em mim novamente a ideia de que eu não seguia mais a trajetória da família.

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