Sunday, June 19, 2011
1981 (Footage 3 from Icarus, Contemplation & Dream)
Trecho do meu livro "Ícaro, Contemplação & Sonho":
Lembro-me de que, nesse momento, pela primeira vez, passou pela minha cabeça a possibilidade de ser o próprio Michelangelo, que havia acabado de conhecer pelo livro. Mas confesso que gelei inteiro só de pensar que aquela Roma, da minha “fantasia”, poderia ser uma memória real. Essa simples possibilidade conjecturada me assustou tanto e tão profundamente que nem sei descrever o desconforto que passei a sentir desde então diante da simples pronúncia do nome Michelangelo.
Esse foi o primeiro contato visual de que me lembro, de modo consciente, com imagens das minhas obras do passado, do tal “Michelangelo”. No futuro, toda explicação de terceiros sobre o desenvolvimento da minha arte recairia nesse momento, quando a Circléa me apresenta o artista e começa a me falar dele. Eu escutaria frases do tipo: “Você se identificou com ele”, “Você captou a obra dele e absorveu tudo”, “Você dominou a maneira dele fazer arte”, “Você se apropriou completamente da identidade dele”. Tudo isso e muito mais apenas porque vi um livro dele. Segundo os “intelectuais” e “pensadores” de diversas correntes e religiões que tive a oportunidade de conhecer, tudo se explica por eu ter sido apresentado à obra dele pela Circléa.
Ficam as perguntas: “Se é assim, então cadê as imagens fotorrealistas de surfistas e ondas nas mais diversas perspectivas em meus desenhos? Pela quantidade de revistas de surfe que eu vivia olhando desde os 12 anos de idade, sem falar nos filmes e na própria prática esportiva, eu deveria desenhar essas imagens, e não arte renascentista. E como é que eu fui me identificar com coisas que antes via e não percebia? E por que as imagens que antes desenhava do mundo do surfe eram tão toscas e infantis?”.
Agora, a verdade: no dia em que eu vi as imagens das minhas obras, como “Michelangelo”, não senti porra nenhuma além do desconforto com o reconhecimento da “lembrança da Sibila Délfica”. Depois de abafar na mente a possibilidade imaginária de ser o próprio Michelangelo, literalmente não senti mais nada. Lembro-me de fantasiar se a tal saudade que me vinha ao desenhar e que me levava a um “passado imaginário” poderia ser daquela Roma, daquela Itália do Renascimento. Mas, nesse momento, não cheguei a acreditar nisso de verdade por um minuto que fosse.
Por muito tempo, eu não entendi por que o ato de olhar a obra nunca me provocou nada. Somente duas décadas depois eu seria capaz de sentir algo em imagens desse passado. E, mesmo assim, apenas com alguns desenhos obscuros meus daquela época que têm relação plástica com o que acabei desenvolvendo em arte nesta vida.
Hoje, eu compreendo a mecânica psicológica que estava em curso nos anos 1980. O ato de desenhar era a expressão de uma lenta conexão interna sendo aberta. Era um processo de crescimento da sensibilidade do interior para o exterior. Por isso, as figuras humanas que eu fazia, mesmo estranhas, seguiam saindo estranhas do mesmo jeito por meses. Elas eram criadas em um mundo interno, completamente impermeável ao exterior. Basta olhar o que eu desenhava e comparar com as obras desse livro que a Circléa me deu para chegar a essa clara conclusão. Fica evidente que a memória criada pelo meu olhar não afetava de modo algum o processo de desenvolvimento inconsciente que estava vivendo. Havia uma vontade subconsciente que se manifestava quando eu procurava, dentro de mim, a intuição musical que me fazia desenhar figuras humanas movido por
sentimento, por saudade.
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