Saturday, September 3, 2011

1983/1 (Footage 5 from Icarus, Contemplation & Dream)


Trecho do livro "Ícaro, Contemplação & Sonho":
Resolvi ler a passagem em que o nome “Vitória” aparecia. “... foi então... blá-blá- blá... que ele conheceu... a famosa Vittoria Colonna...” Não sei mais como era o trecho que li, pois só li uma vez, mas acho que era mais ou menos isso. Entretanto, por alguma razão, a frase “a famosa Vittoria Colonna” fez emergir completamente aquela saudade que sempre sentia quando desenhava. E me veio uma doce lembrança. Lembrei-me de estar na presença dela, Vittoria Colonna. Uma doçura que nunca mais senti na vida me envolveu por inteiro, e meu olhar vagou para cima, tentando ver “a famosa Vittoria Colonna” numa imagem mental prestes a se tornar real. Lembrei-me da alegria que sentia toda vez que a encontrava.
A doçura era tão inebriante que eu sorria, sem parar, na banca de jornal, debaixo do sol, na Rua Real Grandeza. Lembro-me de vagar, em pensamento, por um passado em que eu vivia e amava profundamente “a famosa Vittoria Colonna”.
O profundo sentimento de amor correspondido pela “famosa Vittoria Colonna” foi subitamente encerrado por um choque emocional! Veio-me a dor horrenda de perdê-la e comecei a chorar! Eu me lembrei de que ela havia morrido! Lembrei-me de alguém me dizendo que ela havia morrido! Nesse ponto, aos prantos, o chão sob meus pés se abriu! e me senti caindo em um espaço que engolia tudo à minha volta! Mas eu sentia o sol, sabia que chorava, sentia vergonha pela presença do jornaleiro. Distanciando-me da banca de jornal, me segurei num poste próximo.
Chorando convulsivamente, eu repetia: “... a Vittoria de que eu tanto gostava... que eu tanto amava... que eu sempre encontrava...”, e me segurava no poste. Jamais vou me esquecer do calor do concreto desse poste nas minhas mãos nesse momento. Parecia que o sol estava ali só para me manter consciente e não me deixar esquecer esse dia. Com certeza, esse relato só é possível hoje por causa do calor do sol.
Logo me veio o choque de entender que eu chorava a morte de Vittoria Colonna. “Eu a vi morrer...”, e voltei a chorar até perder o fôlego. O que senti nesse ponto não pode ser descrito em palavras. Um sentimento carregado de compreensão profunda so- bre tudo o que estava acontecendo me invadiu. Era como se, num lapso ínfimo de tempo, eu simplesmente entendesse tudo! Tudo mesmo! Chorei mais ainda. Chorava agora sentado no meio-fio.
O momento de choque mais profundo veio quando estava me recompondo, ainda mergulhado na certeza emocional da realidade daquilo que acontecia. Eu pus as mãos na boca e, chorando baixinho, balbuciei com a voz pastosa:
— Meu Deus!... Eu sou o cara! Eu sou o cara!... Eu sou... ele!... Michelangelo!

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